Buscar
  • Poliglosa

A jardineira do deserto (conto)

Jamile DO CARMO (FAU).


Quem acha que não é possível haver jardins nos desertos engana-se redondamente. A história dela confirma que sim. Uma história similar a muitas outras, nas quais tentar semear no árido é buscar em canteiros do deserto humano algum sinal de vida, algum conforto para a dor. Ninguém “deserta” por acaso, disso ela sabia muito bem.

Tudo começou quando um dia saiu para prestar mais uma queixa, como se fora a uma consulta de emergênia, sufocando-se, agonizada pela ausência de um ar cada vez mais distante. Eram os ares pesados que a envolviam já há muito tempo, ressecando por dentro, impedindo-a de encontrar a forma no verbo conformar que pudesse lhe trazer alívio. Pois a forma de seu viver era torpe, imersa na dor que deforma, que transforma em oceanos os supostos limites da saudade. Precisava de uma resposta! Não podia não haver uma resposta. Afinal, não se desaparece do nada, principalmente de um nada tão repleto de olhos, bocas, ouvidos e mãos.

Saía quase todos os dias como se tomasse parte de uma marcha. Seguia munida de fotos, cartazes, às vezes inclusive de velas. Até pernoitar na porta de delegacias ela pernoitou. Depois, começou a fazer o mesmo nas portas dos jornais, das igrejas, dos hospitais, até que um dia, sem saber exatamente como, acabou pernoitando num deserto. E lá ficou sem conseguir retornar. O impacto da perda mutila: não tinha mais pernas para prosseguir, nem cabeça para pensar, nem braços para segurar tanta barra, tampouco podia mais levar o mundo nas costas. E assim, sentindo-se mutilada, desertou.

Sabia que era estranho estar ali, mas não conseguia questionar muito, precisava encontrar forças, e talvez naquela permanência solitária no deserto, o silêncio e a clareza ajudariam a reemendar-se. Com uma dificuldade cambaleante, continuava agarrada ao fio de esperança que ainda restava, embora este se mostrasse cada vez mais tênue, enfraquecido com o passar de tantos anos em branco, tão brancos quanto os cabelos que agora tinha.

Começou então a semear, mesmo em meio a toda aquela esterilidade, tornando-se uma jardineira. Juntando pedras e galhos secos que encontrava em suas andanças, construiu um excêntrico jardim adornado por desenhos na areia. Era belo sim, belo de um modo peculiar, dentro de uma estética que era retórica, vozes. Uma beleza que não se media nem pelo colorido nem pela exuberância das flores e plantas lá ausentes, senão pela força expressiva de suas formas. E como não havia mais Flora, ela precisava encontrar formas, nem que fosse uma! Perambulava assim horas a fio dunas adentro coletando o que podia para seu jardim.

Em pouco tempo, este ficou sendo um dos cantos mais marcantes daquele deserto, atraindo a atenção de muitos passantes que, cada um à sua maneira, também haviam desertado. Alguns o admiravam, outros tinham pena dela trazendo-lhe de vez em quando uma pedra ou um galho como donativo. E havia também aqueles que a tudo eram indiferentes, infelizmente a maioria. Às vezes, com fria crueldade, chegavam a lhe aconselhar em palavras fardadas:

– Pare com isso! Do que adiantam estes arranjos secos? Não têm mais vida! E estes desenhos na areia? Por mais bonitinhos que estejam ficando vai ser tudo enconberto! Tudo encobre-se, de novo, de novo...e em plena luz do dia. Sempre foi assim e vai continuar sendo.

– Não, não vai não. Pois este jardim, eu lhe digo, não é para ficar. É para ir! Muitos o levarão consigo. E estas, pior que eu, ainda hão de ser as pedras no sapato e no caminho de muita gente!

Pelo menos no deserto sentia-se à vontade para usufruir da tão cara liberdade de expressão, sem barreiras para seus cânticos; algo que para muitos tinha custado um preço altíssimo, ela bem sabia. Lá, sua voz podia ecoar pelas dunas, procurando por outras lá perdidas, como que em forma de caravana pudessem encontrar um caminho, sem temer o ladrar dos cães enquanto passasse. Seu jardim seria um oásis de memórias, que também seguiria passando.

Mas, de fato, os ventos e as dunas se movimentavam tanto a ponto de já terem encoberto muita coisa, parecia até que obedecendo ordens. Independente do que quer que fosse, ela continuava, por assim dizer, plantando. Nunca tinham consigo fazê-la parar, nem sob ameaças, e estas não foram poucas; portanto, não haveria de ser agora que conseguiriam. O jardim não era para permanecer, a intenção mesma era de que o levassem consigo, na persistência da vida, para refazê-lo em outros canteiros, um jardim flutuante. Não, de forma alguma permitiria que fosse mais um jardim dos esquecidos. E contra todos os revezes, esperando pacientemente o que colher, ela sabia exatamente o que plantava.

Trabalhava ali com o afinco de mil semeadores, tentando minimizar a saudade de uma perda mutiladora naquela dimensão desértica. Pois nas almas doídas, estes desertos costumam ser insuportavelmente maiores.

Com muita dignidade, fazia questão de agradecer de coração aos que colaboravam para o seu jardim: “Obrigada! Sempre serão lembrados por nós”, dizia. As pessoas achavam interessante como ela se pronunciava no plural, esta era uma típica marca sua, falando por “nós”, parecendo invocar mais uma presença. Mas não havia “nós” ali, ela estava completamente só.

Entretanto, uma sensibilidade mais apurada reconheceria nisso não o pronome, senão uma metáfora. Ela se referia concretamente aos nós, estes apertados pontos que se atam no transcorrer das linhas. E a linha da vida lhe tinha feito um nó bem grande, um que acabou ficando preso em sua garganta, doendo, sufocando; um nó que muito tem lhe custado desatar. Os outros nós fizera ela mesma, como elos, juntando suas pedras e galhos, falando de suas histórias nas areias, espalhando-as ao vento. Nós como os das contas do seu rosário, já desgastados pelo passar de mãos tão desesperadas.

“Sempre serão lembrados por nós”, expressava-se evocando numa presente ausência uma ausente presença. E assim agradecia em nome de mãe, da filha e do espírito de luta de tantas outras vozes silenciadas, vinculando o que precisa estar vívido contra o esquecimento no atar “por nós”.

Quando lhe perguntavam como tem conseguido, a esta altura de sua vida, suportar tanta aridez, respondia resignada que a secura que mais lhe doía não era aquela do deserto, mas a da indiferença. E logo voltava a trabalhar em seu jardim vislumbrando a próxima caravana.


27 vistas0 comentarios

Entradas Recientes

Ver todo