Buscar
  • Poliglosa

Etnocentrismo em materiais de PLE: uma abordagem geopoética no panorama brasileiro

Actualizado: sep 13

Jamile DO CARMO


Este trabalho apresenta uma perspectiva geopoética no trato da problemática etnocêntrica em materiais de português como língua estrangeira (PLE) publicados no Brasil. Dentro disso, procura-se fomentar uma reflexão sobre os seguintes pontos: que Brasil é de fato representado e por quais motivos? De que maneira os elementos da linguagem, em textos e imagens nestes materiais atribuem identidades, vínculos e sentidos aos espaços brasileiros pelo olhar externo? Que paralelos haveria internamente nestas representações transpostas? O termo "espaços brasileiros" é aqui propositalmente escrito no plural no sentido de ressaltar a consciência sobre suas alteridades e sujeitos constituintes.

Para trabalhar estas questões na tese desenvolvida na FAU-Erlangen (área de Ciências românicas), originalmente foram selecionados cinco livros de PLE entre os mais utilizados: Falar...Ler...Escrever Português (Livro-texto, 2017), Português via Brasil (2016) e Novo Avenida Brasil (Volumes 1, 2 e 3, 2014). Dentre os quais tomaremos aqui em questão apenas os dois primeiros.

Em comum entre eles há o fato de serem: a) atualizados; b) bastante vendidos; c) publicados pela editora brasileira E.P.U. (Editora Pedagógica e Universitária); d) em geral bem avaliados nos comentários na internet; e) escritos por autores brasileiros; f) totalmente voltados ao português brasileiro; g) completamente escritos em português. Este último aspecto é muito expressivo, pois demonstra poderem ser usados em qualquer país, bastando munir-se de livro de gramática da língua local e dicionário. Não menos importante, implica também numa neutralidade quanto a possíveis envolvimentos interculturais, o que já não ocorre em livros de PLE contextualizados, ou seja, escritos com mesclas em inglês, alemão, francês, italiano etc.

O recorte que se apresenta aqui compreenderá apenas a parte textual destes aspectos etnocêntricos. Ressalta-se, no entanto, a fundamental importância das imagens neste esquema representativo devido ao seu potencial sígnico comunicativo, tratando-se também de linguagem que se articula ao texto na construção de sentidos.

Dentro da complexidade do tema, considera-se a importância de práticas e competências inter/ transculturais no trato do PLE, a envolver dialogicamnete docentes e dicentes, num processo de desconstrução/reconstrução de sentidos sobre ideias do espaço, sujeitos e valores transpostos no ensino-aprendizagem da língua. Kenneth White (1998) já salientava em sua linha geopética sobre a necessidade de se repensar o espaço além de um conceito meramente físico, senão epistemológico, considerando as configurações cognitivas engendradas pelas experiências na relação linguagem-mundo, tornando-as explícitas como constructos (mindscapes), o que aqui propomos como (re)pensar o "espaço do PLE".

Segundo Almeida Filho (2005), a área do PLE é algo ainda recente no panorama educacional brasileiro, porém, em significativo crescimento, principalmente desde a criação do primeiro Curso de Licenciatura de Português no Brasil como segunda língua, em 1997, na Universidade de Brasília (UnB). De suma importância destaca-se também a criação da Sociedade Internacional Português Língua Estrangeira (SIPLE), em 1992. Contudo, na opinião de Barbosa (2005) e Diniz (2008), necessita-se ainda de mais publicações e pesquisas[1] na área, principalmente no tocante ao aspecto político intercultural.

Diferentemente do português como língua materna (PLM), o PLE é aprendido num contexto afora o familiar ou pátrio, compreendendo assim uma importante parcela de interculturalidade no sentido de proporcionar intercâmbios e aproximações. Neste âmbito, por uma maior eficácia no ensino-aprendizagem, concretamente é preciso adotar uma perspectiva tanto multi quanto intercultural, com metas e práticas que vão desde o respeito pelas alteridades até a atenção sobre as interposições entre o português e a língua materna do aprendiz (Orlandi, 2002). No entanto, a gramática normativa ainda é colocada como principal ferramenta a esse fim, acabando por contribuir a uma estruturação homogeneizante, sem uma necessária sensibilização à percepção crítica sobre preconceitos transpostos. A respeito, atesta Barbosa (2015, p. 226):

"Uma observação mais demorada dos livros didáticos de português para estrangeiros mostra-nos que há um predomínio de elementos gramaticais e que os textos referentes à cultura tendem a mostrar aspectos generalizadores, privilegiando uma visão homogênea do que seja o Brasil e os brasileiros".


Como afirmou o escritor Antoine Rivarol (1753-1801): "A gramática é a arte de arredar as dificuldades de uma língua; mas é preciso que a alavanca não seja mais pesada que o fardo[2]". Com efeito, e ao tratar do etnocentrismo em materiais didáticos de PLE há que cuidadosamente atentar às formas de construção do discurso e das representações, especialmente como estes conformam estigmas valorativos e padronizações idealizadas que o Brasil cultiva e exporta sobre si. Conforme Perez (1991, p. 90):

"O livro didático constitui-se em mais uma peça, pela qual a sociedade capitalis- ta procura engendrar uma visão harmônica integrada do mundo. Enquanto con- cretiza sua unidade na divisão social, o mundo capitalista necessita a todo instante reforçar suas representações, tais como: a objetividade, como terreno exclusivo do mundo da ciência, da natureza; a subjetividade, onde reina o mundo da arte, da beleza. Essas representações, necessárias para a manutenção de determinada formação social, são sustentadas por dicotomias mais antigas, inclusive da época clássica, que se perpetuam por um processo de cristalização. [...] Assim, além do trabalho com palavras isoladas, textos isolados, aparecem as seguintes oposições: língua/fala, sociedade/indivíduo, língua/literatura, emoção/razão, realidade/literatura, poder criativo/processo racional, denotação/ conotação. Dessas elaborações, é fácil chegar a formas de percepção do mundo mais camufladas: certo/errado, culto/inculto, bem/mal".

A relação da geopoética com o PLE aqui proposta, além da abertura de um campo reflexivo-discursivo, pretende justamente a quebra deste processo de dicotomização através de uma dialetização pela qual os enunciados expostos sejam dialogicamente problematizados. Da mesma forma que inserindo outros dados e impressões que possibilitem uma exploração crítica reconstrutiva quanto aos valores transpostos nestes materiais didáticos (o mesmo valendo para as práticas pedagógicas).

É assim que, numa linha geopética de reflexão, envolvendo a tríade sujeito-espaço-linguagem em relações dialéticas, novos questionamentos possam ser engendrados, discutidos e trabalhados, dando visibilidade a outras vozes e geograficidades no aprendizado do PLE. São as sínteses surgidas nas comparações entre enunciados de teor etnocêntrico e dados sobre outras realidades histórico-culturais brasileiras, que se proporciona um "sair para captar" geopoético (White, 1998). E no intuito de se obter uma visão aprofundada sobre este panorama, é preciso que o docente considere os referenciais temporais sincrônico e diacrônico, pois inúmeras constatações etnocêntricas na atual conjuntura brasileira, e repassada nestes materiais, remontam a um passado histórico mal trabalhado e tanto mitificado quanto mistificado, a exemplo do velho jargão nacional de "democracia racial". Como salienta DaMatta (2004, p. 26):

Na nossa ideologia nacional, temos um mito de três raças formadoras originais. Não se pode negar o mito. Mas pode-se indicar que o mito é precisamente isso: uma forma sutil de esconder de nós mesmos um sistema de múltiplas hierarquias e classificações sociais. Assim, o "racismo à brasileira", paradoxalmente, torna a injustiça algo tolerável e a diferença, uma questão de tempo e amor. Eis, numa cápsula, o segredo da fábula das três raças.

Um procedimento de "desmitificação" atrelado ao PLE torna-se necessário na medida em que, partindo de um princípio ético-humanista de respeito e inclusão, fomentem-se práticas pedagógicas crítico-reflexivas envolvendo as alteridades brasileiras. Uma vez criado este espaço, é preciso trabalhar pela ruptura das normatizações ratificadas por uma hegemonia homogeneizante, evidenciando o etnocentrismo e principalmente as estigmatizações que lhes servem de base. Afinal, a quem e a que interesses servem?

As elaborações metodológicas a este fim, diga-se de passagem, devem ser uma responsabilidade assumida consciente e dialogicamente pelo docente, pois há que se agir de acordo com os perfis de seus grupos (adulto, infanto-juvenil, universitário etc.) e do contexto geográfico-cultural onde se encontram, principalmente quando esta aprendizagem ocorre fora do Brasil (internamente, inserindo conscientemente demais contextos regionais). Do contrário, incorreria-se em arbitrariedades generalizantes ou infundadas, posto que isentas de uma consciência sobre o locus em questão e do repertório dos aprendizes: seus aspectos linguísticos, históricos, sócio-culturais, bem como o Brasil aí se encontra relacionado. De qualquer forma, é preciso engendrar, como necessário em todo âmbito educacional, práticas reflexivas que eduquem para uma inserção lúcida e transformadora, ao contrário de adapatar-se acriticamente às instrumentalizações (Freire, 1991). De acordo com Barbosa no que diz respeito ao PLE (2005, p. 226):

"Para verificar em que medida os manuais de português para estrangeiros retratam o Brasil e os brasileiros e, sobretudo, como o fazem, partimos da concepção de que o ato de aprender não pode ser entendido como uma prática instrumental, pois esta implica desprovimento das práticas sociais ou das intervenções subjetivas".

De maneira alguma o preconceito e a exclusão podem ser justificados como "normalidade" ou mera "casualidade", posto que é uma violação ética e fere a dignidade humana. Tempos a fio, este problema alastra-se pela sociedade brasileira como uma nuvem invisível (ou que não se quer ver), e é preciso dar-lhe visibilidade, quebrando os estigmas da "cultura do silêncio" (Freire, 1991). Assim, não se está tratando aqui de nenhuma indevida acusação aos autores nem à editora, tampouco depreciando a qualidade de explanação gramatical ou exercícios dos livros. Está-se explicitamente atendendo a necessidade de ampliação de um campo discursivo, o que aqui expomos sob uma perspectiva geopoética.


GEOPOÉTICA: UMA DEFINIÇÃO

Partamos agora para uma definição sobre geopoética a fim de entender, mais adiante, suas implicações interculturais ligadas ao PLE quanto a rupturas etnocêntricas. Muitas vezes confundida com geopolítica, dado à similitude entre as palavras ou por um escape semântico, o termo geopoética é ainda suscetível a tentativas de correção. Como coloca Khalid Hajji (In: Hashas, 2017, p. xi): "Almost every time you mention the word 'geopoetics' someone will jump up to correct you:'Did you mean geopolitics?'" Segundo Collot (2011, s. p.), nos domínios da literatura há ainda associações confluentes sobre geopoética às ideias de geografia da literatura e geocrítica:

"Essa evolução das práticas e formas de escrita defende uma melhor integração da dimensão espacial nos estudos literários, em três níveis distintos, mas complementares aos meus olhos: o de uma geografia da literatura, que estudaria o contexto espacial em que as obras são produzidas e localizadas geograficamente, mas também históricas, sociais e culturais; a de um geocriticismo, que estudaria as representações do espaço nos próprios textos e que preferiria situar-se no nível do imaginário e do tema; a de uma geopoética, que estudaria as relações entre espaço e formas e gêneros literários, e que poderia levar a uma poética, uma teoria da criação literária". (tradução e grifo nossos)[3]

A geopoética é ainda uma teoria recente, oferecendo um amplo campo de exploração no que diz respeito a uma percepção crítico-existencialista sobre os espaços, proporcionando outras formas de ser e estar presente no mundo, agindo etica e interativamente. O termo foi criado em 1979 pelo filósofo e escritor escocês Kenneth White que veio a fundar, em 1989, o Instituto Internacional de Geopoética[4]. O próprio autor coloca a teoria como um "intercultural and transcultural moviment" (1998, p. 210). Ainda em suas palavras: "It is about grounding human existence; the geopetics project ist neither a cultural 'variety' nor a literary school, nor even a poetry considered as a proper art. It is a major movement that concerns the foundations of human existence on earth".[5]

O nome provém de um neologismo entre o prefixo "geo" e o sufixo "poética". Geo: terra, mundo, planeta; observado aqui como o espaço que a humanidade divide em comum, ou seja, núcleo referencial compartilhado e configurado diferentemente pelas mais diversas culturas. Poética: ao invés de uma alusão à criação literária, trata-se da dinamização do pensamento, aproximando-se do conceito aristotélico de nous[6], intelecto baseado no senso racional consciente da elaboração de sentidos, distinguindo-se assim da mera percepção sensorial. Portanto, ao invés de uma captação passiva, o pensar geopoético baseia-se em experienciações dinamico-comparativas, dialeticamente reflexivas sobre o mundo, ampliando concepções e repertórios.

Trata-se de uma teoria sobre territorialidades fortemente vinculada a novas percepções quanto à interação indivíduo, linguagem e espaço, bem como se transformam influenciando-se mutuamente. Daí sua natureza fenomenológica. Nas palavras de McFadyen (2018, s. p.): "If geography means 'earth-writing', geopoetics can be interpreted as means 'world-making'. It is fundamentally about creativity".

Além da enfatização do potencial criativo-cognitivo, em geopoética o espaço não é mais concebido apenas de forma fisicamente geográfica, porém mais humana, simbólica e relacional, refeito principalmente pelas constantes diásporas contemporâneas cujos intercâmbios culturais dão-lhe não só novos contornos e paisagens como também diferentes concepções. Estas, como já abordado, são referidas como mindscapes, ou seja, configurações intelectivas a partir de novas experiências, seja inter/transculturais ou inter/transdiscisplinares, envolvendo percepção dos espaços e linguagem (White, 1998, 2003). De acordo com Collot (2011, s.p - grifo do autor, tradução nossa)[7]: "O conceito de geopoética que Kenneth White procura promover é muito amplo; vai além do campo da poesia e da literatura, visando a criação de um 'novo espaço cultural', que abraça as artes, as ciências e a filosofia".

Por estas razões, a geopoética caracteriza-se por um cerne tanto inter/transdisciplinar quanto inter/multicultural, induzindo a um mover-se "centrífugo", espécie de peregrinação intelectual, quer seja num espaço físico ou referenciado, a exemplo de uma obra literária (McManus, 1997). Assim, vem a estabelecer fortes vínculos com diversas áreas do conhecimento, especialmente no tocante às linguagens, possibilitando engendrar outras formas perceptivas que resultem em novas reflexões-ações por este ato de "mover-se". Segundo Hashas (2017, p. 6):

"Geopoetics has been developing since the 1970s, which means a bit longer than both multicultural and intercultural political theories. Now that geopoetics has outlined its broad interdisciplinary premises, and can be considered a reinvigorating postmodern project, it is not only possible but also necessary to read it in according to societal needs, without demurring its bigger – global and existential – aspirations".

De acordo com White (1998, 2003), o reaprender a ver a si mesmo, os outros e o próprio mundo como entes tanto inseparáveis quanto inconstantes, sobretudo como responsabilidade no devir, é uma expectativa geopoética cuja premissa centra-se no "nomadismo intelectual". Este visa romper a lógica estruturalista e classificatória do chamado Motorway of Western civilization, ou seja, o conjunto das seis principais fundamentações paradigmáticas nas quais se basearam a produção do conhecimento no Ocidente. Saturadas bem como incapazes de corresponderem às necessidades dos ensejos contemporâneos, precisam ser renovadas, ou mesmo superadas. Sobre as etapas de implementação destes modelos, assinala Hashas (2017, p. 12):

"The first stage in the ‘Western motorway’ is the Classical Age that is summarized and dominated by Plato and Aristotle. The first is known by his metaphysics and idealism (the ideal world), away from the real world. To White, this philosopher is ‘a person interested in something beyond “mundane” concerns: the Good, the True, the Beautiful’, which implies that he should not build ivory towers and forget to ‘get his feet on the ground, and get back to “the real world”’. The second, Aristotle, is known by his classification, which ‘most of our knowledge is based on’".

De acordo com a cronologia geopoética (White, 2003), além do legado clássico platônico-aristotélico, com o passar do tempo, outras significativas contribuições foram cristalizando passo a passo o cerne do pensamento ocidental, fundamentando a produção artística, filosófica, científica, além de modelos políticos e econômicos. Em outras palavras: estruturando uma visão de mundo e, paralelamente, de "realidade", mais tarde repassadas pelo processo colonial. Os outros estágios correspondem respectivamente ao Cristianismo, Renascimento, Cartesianismo, Romantismo e ao historicismo hegeliano, cuja visão progressista destituí a América da posibilidade de uma "História", tornado-a desta forma dependente do legado europeu (Hashas, 2017).

Ressaltamos assim que a referência atribuída ao aspecto "ocidentalizante" não se trata de mero conceito geográfico, senão epistêmico, como atesta Mignolo (2008, p. 290): "Dessa maneira, por 'Ocidente' eu não quero me referir à geografia por si só, mas à geopolítica do conhecimento". Através do "sair para captar", propõe-se provocar novos referenciais perceptivos capazes de integrar harmonicamente sujeitos e espaços. Proporcionar tal "saída", ratifica-se, é fundamental para reconhecer, compreender e transpor as fronteiras das sedimentações ideológicas, como alega Hajji (In: Hashas, 2017, p. xii):

"In fact, one of the key elements of geopoetics is ‘intellectual nomadism’, or wandering in uncharted territories in search of signs that hint at unsuspected harmonious wholes. […] By placing Earth at the centre of human experience, geopoetics equips us today to rethink the relationship between language and being, as it alerts our minds to hidden dimensions that are common to human existence, independently from cultural belonging".


Segundo White (1998), este aspecto nômade pode significar um deslocamento de fato e/ou um transcender intelectivo, levando a aprofundar o ato de observar expandindo as capacidades do pensar e interagir, assim contribuindo na dissolução de limitações padronizadas. Estes processos podem dar-se pelas viagens, pelos contatos locais (muitas vezes reaprendendo a observar o seu próprio locus) e pelas formas de expressões artísticas (literatura, teatro, música, artes visuais, etc.), seja praticando-as ou em contato com elas, de qualquer forma, vivenciando-as, interagindo.

O dialogismo dialético em torno da geopoética vem assim a implicar em novas formas de percepção nas quais as sínteses entre ações e reações diante do experienciado culminem em reflexões críticas, e vice-versa, sobretudo transformadoras. Pela tríade ação-reação-reflexão envolvendo linguagem e geopoética, define McManus (2007, p. 148): "The central question, then, is this: what is the relationship between our embodied experience and perception, and the language we use to express it? I later came to realise that is a central question of geopoetics".

Desta forma, objetivando concretamente um procedimento de desconstrução de uma hegemonia etnocêntrica, é preciso tratar o tema mais do que como um problema, senão como problemática. O que significa abordá-lo em suas complexas gênesis e interconexões, vasculhando suas fontes mantenedoras, evitando-se uma ineficaz focalização como "produto", ao qual a atribuição de um rótulo encerra uma qualificação estanque, bastando que troque os moldes mas permanecendo a essência. Assim, num prisma geopoético, a observação do etnocentrismo em materiais de PLE implica em observá-lo como "processo" dentro das legitimações incutidas sobre o espaço brasileiro.

ASPECTOS ETNOCÊNTRICOS

No sentido de uma contextualização necessária dos materiais didáticos citados, apresentemos em seguida um breve perfil da editora que os publica. A E.P.U. pertence ao Grupo Editorial Nacional (GEN), responsável por diversos tipos de publicação de cunho acadêmico e científico no Brasil. Junto a isso, e como parte de seus princípios norteadores, faz constar nos prólogos dos seus livros um compromisso ético vinculado ao mercadológico:

"Nossa missão é prover o melhor conteúdo científico e distribuí-lo de maneira flexível e conveniente, a preços justos, gerando benefícios e servindo a autores, docentes, livreiros, funcionários, colaboradores e acionistas. Nosso comportamento ético incondicional e nossa responsabilidade social e ambiental são reforçados pela natureza educacional de nossa atividade, sem comprome- ter o crescimento contínuo e a rentabilidade do grupo" (grifo nosso).

Este mesmo "compromisso", acrescido do intercultural, consta no prefácio de cada um destes livros. A exemplo do Português via Brasil (2016, p. IX) onde as autoras alegam ter "como objetivo levar o aluno pré-avançado a um alto nível de proficiência linguística, dando-lhe, ao mesmo tempo, visão ampla da cultura brasileira, por meio de textos que enfocam paisagens e usos e costumes regionais" (grifo nosso). O que ocorre na prática, entretando, mostra-se como uma outra realidade, imersa em estereótipos e folclorizações sobre o outro, seus espaços e culturas.

Como já salientado, os aspectos etnocêntricos selecionados serão apenas os textuais, restringindo-se aos livros: Falar...Ler...Escrever Português (Livro-texto, 2017) e Português via Brasil (2016). Exceto os textos 4 e 12 , os demais são das autoras dos livros. Interessa ressaltar ainda a tomada do conceito de Bakhtin (2006) de voz como "consciência falante" permitindo entrever as ideologias por trás destes enunciados. Vejamos alguns exemplos, a começar por cenas que envolvem banditismo e estereotipização, dentro das quais a representação dos sujeitos aludem às teorias racialistas predominantes até meados do século XX.

(1) Retrato falado:

"– A senhora pode descrever o ladrão?

– Posso. Eu o vi de perto. Ele não é loiro. É moreno.

O rosto dele é redondo e a testa...

– Um momento. Vamos fazer o retrato.

– A testa é alta. Os olhos são grandes e as sobrancelhas são bem grossas.

– E o nariz. É assim?

– É comprido e fino. Tenho certeza.

– E o queixo?

– Acho que é quadrado.

– E as orelhas? São assim?

– Não sei. Não me lembro, mas o cabelo é crespo".

(Iunes & Lima, 2017, p. 63 - grifo nosso)

(2) "Ainda hoje grupos indígenas ocultos na floresta. São os índios arredios Temos pouca ou nehuma informação sobre eles. Eles vivem completamente isolados, exatamente como viviam há 500 anos. Nenhum desses grupos tem contato com outro grupo indígena, resistindo com violência à invasão de suas terras. Quando perdem a luta, afastam-se para pontos ainda mais inacessíveis. As tentativas de aproximação são sempre perigosas. Como aconteceu várias vezes, os índios podem atacar de repente. Flechas e bordunas são sua resposta à tentativa de conversa do homem branco.

[…] 5. Para você refletir antes de responder: nas reservas, poucos índios ocupam vastíssimo território, muitas vezes rico em ouro e madeira de lei. Você considera a criação das reservas medida realista ou não? Comente". (Iunes & Lima, 2017, p. 187-188 - grifo nosso)

(3) "O Ceará apresenta apresenta vários tipos característicos. […] Ao lado da rendeira e do jangadeiro, há o cangaceiro – uma figura do passado, uma mistura de herói e de bandido, do homem violento, mas valente. O cangaceiro vivia antigamente uma vida dura no duro sertão do Ceará, atacando e fugindo, sobrevivendo..." (Iunes & Lima, 2017, p. 101 - grifo nosso)

(4) "O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua parência entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempenho, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados[…] A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou paraede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos […] E se na marcha estaca pelo motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeira conversa com um amigo, cai logo - cai é o termo - de cócoras, […] todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável. Reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene, em tudo […] Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude" (Euclides da Cunha, Os Sertões. In: Iunes & Lima, 2016, p. 108 - grifo nosso).

"1. De quem fala o autor? Identifique o sertanejo.

2. O sertanejo não tem postura elegante. Por quê?

3. Como anda o sertanejo?

4. O sertanejo parece sempre cansado. É esta a impressão que temos quando o observamos:

a. parado, em pé b. parado, a cavalo c. parado, de cócoras

5. O autor, entanto, afirma que 'toda esta aparência de cansaço ilude'. Explique." (Iunes & Lima, 2016, p.108 - grifo nosso)

As figuras do indígena e do mestiço, nestes que correspondem apenas a alguns entre inúmeros outros exemplos (também em imagens) de mesma natureza nos livros, encontram-se inteiramente estereotipadas em padronizações preconceituosas, destacando-se o cúmulo da questão colocada no texto 2. O texto 4, de um trecho "selecionado" da obra Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, bem como as cinco questões interpretativas que o acompanham (elaboradas pelas autoras), concentram-se massivamente nos aspectos físico e psicológico das personagens. A descrição da aparência e modos dos sujeitos, que aludem a uma espécie de dissonância estética ontológica refletindo-se em seu caráter, é baseada no racialismo seguido pelo autor[8]. Depara-se com caracteres que em nada se aproximam da "altivez heróica" do bandeirante paulistano, como veremos adiante. O negro, a propósito, é praticamente invisibilizado. Esta configuração muda completamente, entretanto, quando se parte da contextualização dos principais eixos econômicos e de população branca do país:

(5) "Os italianos, "os colonos", invadiram São Paulo com suas tradições, costumes e língua, introduzindo novos hábitos na vida dos paulistas. E vieram, também, entre outros, os alemães, os espanhóis, muitos portugueses, árabes, turcos, japoneses, judeus de todos os cantos, todos eles dando sua contribuição para a criação de um povo com perfil especial. Os paulistas são, sim, brasileiros, mas quase sempre ligados a outros povos, a outras paisagens. O café, já anos antes, tinha feito nascer uma nova "aristocracia" – a dos "barões do café" - constituída de grandes fazendeiros brasileiros, do Vale do Paraíba, que acumularam fortunas fabulosas e viviam como verdadeiros nobres abastados" (Iunes & Lima, 2017, p. 244 - grifo nosso).

(6) "Os imigrantes são elementos importantíssimos na formação da população brasileira. Se, de um lado, os que para cá vieram adotaram a nova terra e nela construíram sua nova vida, por outro, o Brasil deve a eles grande parte de seu desenvolvimento. Seus descendentes, sem dúvida, agora são brasileiros. Cada qual, entretanto, de alguma forma, sente-se ligado ao país de seus antepassados" (Iunes & Lima, 2017, p. 268 - grifo nosso).

(7) "O sonho de transferência da capital Federal do litoral - Rio de Janeiro - para o interior do país vem de longa data. Ela sempre foi um sonho antigo dos brasileiros. […] o nome Brasília foi sugerido, já em 1823, por José Bonifácio de Andrade e Silva, paulista de muito destaque na política brasileira" (Iunes & Lima, 2016, p. 72 - grifo nosso).

(8) "Incrível! São Paulo - um jardim botânico a céu aberto, é uma das cidades mais bem arborizadas do mundo! Árvores como jequitibá, ipê, jacarandá, cássia, mulungu, cedro, sapucaia e tantas outras espáecies dão a São Paulo um ar especial. Nos meses de primavera e verão, a cidade torna-se um jardim. […] Contra toda a lógica, apesar da poluição, do barulho, do asfalto quente, da tensão, da correria, da gritaria, dos problemas todos de uma cidade imensa e indomável, de chofre, irrompem em nosso caminho, assim no meio de muito verde, sem mais nem menos, árvores floridas, lindas - um espetáculo de cores que só nos faz bem" (Iunes & Lima, 2016, p. 8 - grifo nosso).

No que corresponde ao regionalismo, como já observado no texto 3 e na escolha do 4, observa-se nestes materiais uma forte tendência folclorizante, ou de apelo turístico e exótico sobre o que se encontra fora do eixo Rio-São Paulo. A exemplo da Bahia:

(9) "A Bahia é um dos estados mais interessantes do Brasil. Seus habitantes guardam ainda tradições de religião, comidas e costumes da época da escravidão negra. A capital, Salvador, tem 365 igrejas (segundo a tradição popular). Seus habitantes misturam o culto católico com cultos africanos, como o candomblé. A festa de Iemanjá, rainha do mar, atrai milhares de pessoas e é um lindo espetáculo" (Iunes & Lima, 2017, p. 101-grifo nosso).

Esta mesma ideologia hegemônica recai também sobre a projeção dos heróis nacionais, na qual os bandeirantes ocupam um papel de destaque, expondo-se com naturalidade o ato criminoso da "caça aos ídígenas", bem como as glórias da expansão territorial do país, tendo tudo "valido a pena":

(10) "Lá dentro, na mata, havia riquezas sim, riquezas para descobrir e índios para caçar e levar para as fazendas como mão de obra escrava. Mas a mata era fechada, fechada. Era preciso conquistá-la. […] Os "bandeirantes" - membros da expedição, geralmente paulistas, eram homens determinados, corajosos, ousados. Deixavam suas propriedades e a família para tentar a sorte e enriquecer. As mulheres ficavam para trás, cuidando da terra e da prole, sozinhas por anos, fortes elas também.[...] A aventura, longa e difícil, valeu a pena? Ouro e pedras preciosas? Esmeraldas, diamantes? Com certeza, valeu" (Iunes & Lima, 2017, p. 139 - grifo nosso).

(11) "Com seu esforço incrível, os bandeirantes empurraram os limites do Brasil, aumentando seu território. Dos 8.500.000 Km² do atual território brasileiro, pelo menos 5.000.000 Km² foram resultado da ousadia dos bandeirantes. Pelo caminho, fundaram vilas, descobriram minas e mais minas de ouro, de prata, platina, esmeraldas, águas-marinhas, diamantes... Poucos episódios da história dos povos são tão espantosos quanto a aventura dos bandeirantes. Exploradores que, por sua própria conta e risco, expandiram e ocuparam o território brasileiro. Uma grande aventura! Loucura? Hoje, relatos oficiais e lendas se confundem. Não podia ser diferente..." (Iunes & Lima, 2017, p. 139-140 - grifo nosso).

Segundo Bagno (2009, p. 91), entretanto, as ações dos bandeirantes nada tinham de enobrecedoras, muito menos de benéfica aventura como alegam as autoras:

"Muito pelo contrário, o que a história nos conta é que os bandeirantes eram de uma crueldade desumana para com os índios, a quem buscavam escravizar a toda força, despojando-os de suas terras, de suas riquezas e, muitas vezes, de suas vidas. Conta-se de uma expedição bandeirante que capturou, no sertão, 500 índios para escravizá-los, mas que desses só 50 chegaram a São Paulo, por causa dos esforços dos bandeirantes "para serem amáveis, gentis".


O tom maledicente/protecionista, condizente ao tipo de discurso dos livros, revela um preconceito enrustido que, parafraseando Freire (1991, p. 81), "transforma-se, na melhor das hipóteses, em manipulação adocicadamente paternalista". Observemos a seguir, num dos raríssimos exemplos, como é tratado o negro:

(12) Irene no céu

"Irene preta

Irene boa

Irene sempre de bom humor

Imagino Irene entrando no céu:

– Licença, meu branco!

E São Pedro Bonachão:

– Entre, Irene. Você não precisa pedir licença".

(Manuel Bandeira. In: Iunes & Lima, 2017, p. 139)

1. Por que Irene não precisa pedir licença para entrar?

2. A linguagem de Irene é típica de que tipo de pessoa? No caso, quem é o branco?

3. Irene é revoltada contra sua situação? Como sabemos?

(13) Cena brasileira: O Negro - O preconceito racial

" […] O preconceito racial não assume formas agressivas, mas faz, indiscutivelmente, parte do comportamento da população. O racismo, condenado publicamente, de forma vigorosa, frequentemente aflora na esfera privada e em situações concretas de trabalho. O brasileiro reage de forma emocional, indignada mesmo, se acusado de possuir preconceito racial. A atitude das classes média e alta, porém, o contradiz. Na classe baixa, no entanto, há confraternização – a confraternização na pobreza. É nessa camada que se verifica a miscigenação". (Iunes & Lima, 2016, p. 27)

As três questões relacionadas à interpretação do poema (12) de Manuel Bandeira, apresentam um tendencioso quadro racial discriminatório, especialmente pela atribuição da "linguagem típica" da personagem a um determinado tipo de pessoa que não "é o branco". A figura de Irene, "sempre de bom humor", remete a uma vida sem lamúrias nem revolta, o que encontra na questão 3 um endosso ao fato de ser uma "preta boa", não precisando, portanto, pedir licença para "entrar no céu", pelo menos não neste espaço imaginário. Diferentemente do negro, do indígena e do mestiço "bandidos" dos exemplos anteriores, a construção estabelecida entre a seleção do texto e as questões inseridas (não o texto isoladamente), induz a uma ideia de que Irene é boa posto que "negra conformada".

No texto 13, as autoras afirmam que no Brasil o "preconceito racial não assume formas agressivas", o que só pode revelar uma cegueira ideológica ou uma completa falta de conhecimento da realidade brasileira. Segundo dados do Mapa da Violência 2019 (p. 49)[9],

"verificamos a continuidade do processo de aprofundamento da desigualdade racial nos indicadores de violência letal no Brasil, já apontado em outras edições. Em 2017, 75,5% das vítimas de homicídios foram indivíduos negros (definidos aqui como a soma de indivíduos pretos ou pardos, segundo a classificação do IBGE, utilizada também pelo SIM), sendo que a taxa de homicídios por 100 mil negros foi de 43,1, ao passo que a taxa de não negros (brancos, amarelos e indígenas) foi de 16,0".

Dentro do quadro apresentado, concluímos ser premente que os docentes, tornando-se alertas à problemática etnocêntrica nos materiais de PLE, aprofundem seus conhecimentos sobre história e cultura brasileiras paralelamente a práticas interculturais crítico-reflexivas. Que criem competências capazes de inserir, democraticamente, este conjunto no ensino do PLE buscando romper os preconceitos e silenciamentos, expondo-os e debatendo-os. Para tanto, posicionando-se conscientemente no desenvolvimento de suas práticas pedagógicas. Além do aprimoramento da eficiência profissional, central é "descentralizar", é o compromisso humanizante por uma visão plural e democrática sobre um território e seu povo, explorando suas identidades, historicidade, culturas, debatendo o racialismo velado que os reduzem a clichês (DaMatta, 2004), excluindo ou folclorizando suas raízes e vozes.

Sobre o caráter da interculturalidade geopoética na promoção de uma sensibilização e input a respeito, coloca Hashas (2017, p. 5): "Intercultural geopoetics is about recognizing difference and appropriating it as part of one's growth in a shared public space, and this becomes clearer in the political and philophical debate in modern plural societies". A isso, atrela-se ainda uma atitude epistêmica de descolonização capaz de reconhecer e combater o etnocentrismo, começando pelo próprio campo cultural no ensino de uma língua (Nascimento, 2019). Nas palavras de Ocaña (2018, p. 79): "La pedagogía moderna/occidental no puede reconocer ni invisibilizar las diferencias entre los seres humanos, por cuanto su intención formativa es homogeneizar y estandarizar , de ahí que sea una pedagogía colonizante".

Numa sensibilização geopoética de reconstrução de espaço e sentidos, tomemos metaforicamente uma ideia de casa. Imaginemos que numa casa, já em ruínas, insiste-se em manter os velhos aparatos, móveis e cômodos, "adequados" a um estilo que, contraditoriamente, sequer é próprio à paisagem circundante, tampouco ao de seus moradores. Porém, "arquitetado" para corresponder aos requisitos de seus proprietários tradicionalistas, que sequer existem mais. Uma casa não renovada, na qual decadentes paredes ostentam há séculos os mesmos retratos desbotados, os mesmos quadros, com as mesmas paisagens em esmerosas molduras desgastadas pelo tempo. E este, o tempo, simboliza-se cristalizado num velho relógio de parede, cujos ponteiros apenas apontam, inertes, pois o relógio, embora um imponente adorno, já não funciona mais. Pelas janelas, os vidros embaçados impedem de ver com clareza o lá fora. De dentro, os espelhos que muito mal refletem e as gavetas empanturradas de papeladas ilegíveis aludem a uma identidade-memória flutuante. Assim, de nada adianta tirar poeira, pintar por cima, trocar portas e janelas ou pôr telhado novo se a estrutura não segura mais. O desafio está em reconhecer que a casa apodrecida precisa ser demolida, pois o que se tem com esta ilusória atitude de funcionalidade é apenas um jogo de aparências a manter o que já se tornou insustentável. Portanto, a partir de bases consistentes, reedifica-se rompendo com a intransigência monolítica de não ser o que é passagem.

Como significativo exemplo geopoético de desmitificação etnocêntrica, encerramos aqui com o caloroso agradecimento do antropólogo Massimo Canevacci (1996, p. 10) aos colegas brasileiros à época em que trabalhou na Universidade de São Paulo, na esperança de se poder encontrar mais palavras como estas:

"Por tudo isso, só posso manifestar um doce agradecimento a muitas pessoas, amigos e às vezes simples conhecidos, irmãos e irmãs por afinidade, particularmente àqueles que conseguiram romper minha formação metropolitana eurocêntrica e ampliar as visões panorâmicas em direção às culturas afro-brasileiras, nativas ou simplesmente brasileiras".


Espera-se que esta abordagem, dentro do peculiar nomadismo intelectual geopoético, possa conduzir a um pensar crítico-reflexivo reconstrutivo. E não só restrito ao PLE, mas ao conhecimento e às relações humanas em geral, para que, frente a tudo isso, ao menos seja-se capaz de perguntar: Para onde? - eis o primeiro passo.



[1]Ver, respectivamente, quadros completos de livros didáticos e publicações de dissertação e tese sobre PLE publicados no Brasil em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8142/tde-19032018112257/publico/2017_MoanaDeLima ESilvaLobo_VCorr.pdf e http://museudalinguaportuguesa.org.br/wp-content/uploads/2017/09/ ENSINO-COMO-LINGUA- NAO-MATERNA.pdf [2]Fonte: https://www.escritas.org/pt/t/26980/a-gramatica-e-a-arte , acesso em 05/07/2020. [3]Cette évolution des pratiques et des formes d’écriture plaide en faveur d’une meilleure intégration de la dimension spatiale dans les études littéraires, à trois niveaux distincts mais complémentaires à mes yeux: celui d’une géographie de la littérature, qui étudierait le contexte spatial dans lequel sont produites les œuvres, et qui se situerait sur le plan géographique, mais aussi historique, social et culturel; celui d’une géocritique, qui étudierait les représentations de l’espace dans les textes eux-mêmes, et qui se situerait plutôt sur le plan de l’imaginaire et de la thématique; celui d’une géopoétique, qui étudierait les rapports entre l’espace et les formes et genres littéraires, et qui pourrait déboucher sur une poïétique, une théorie de la création littéraire. [4]www.institut-geopoetique.org , acesso em 15/07/2020. [5]Trecho do discurso inaugural do Instittuto Internacional de Geopoética em Paris a 26 de abril de 1989. Disponível em: http://www.institut-geopoetique.org/en/presentation-of-the-institute , acesso em 15/07/2020. [6] Este termo não possui uma tradução concreta no Português, sendo geralemnte considerado como equivalente à inteligência ou ao pensamento. Sobre isso ver a obra de Aristóteles: Metafísica (XII, 7, 1072, b.). [7]La conception de la géopoétique que cherche à promouvoir Kenneth White est très large ; elle déborde le champ de la poésie et de la littérature, pour viser à la création d’un « nouvel espace culturel », qui embrasse les arts, les sciences et la philosophie. [8]A obra encontra-se embasada dentro do determinismo de Hippolyte Taine, segundo o qual o ser humano seria o produto de três fatores: o meio ambiente, a raça e o momento histórico. Euclides da Cunha, assim como muitos intelectuais à sua época, era racialista e defendia o purismo racial acreditando na degeneração proveniente com a miscigenação. Este determinismo classificava o mestiço brasileiro como uma raça inferiror. [9]Disponível em: https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/relatorio_institucional/190605_atlas_da_violencia_2019.pdf , acesso em 30/07/2020. REFERÊNCIAS:

ALMEIDA FILHO, José Carlos. "Análise de abordagem como procedimento fundador e auto-conhecimento e mudança para o professor de língua estrangeira". In: ALMEIDA FILHO, José Carlos (org.): O Professor de Língua Estrangeira em Formação. Campinas: Pontes Editores, 2005.

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2006.

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico - o que é, como se faz. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

BARBOSA, Lucia Maria de A. (2015). "Procedimentos interculturais e diversidade étnico-racial do Brasil em dois livros didáticos de português para estrangeiro". In: Revista Entre Línguas, Araraquara, v.1, n.2, p. 223-236.

CANEVACCI, Massimo. Sincretismos, uma exploração das hibridações culturais. Tradução: Roberta Barni. São Paulo: Studio Nobel, 1996.

COLLOT, Michel (2001). "Pour une géographie littéraire". In: Fabula, La recherche en littérature. LHT nr. 8. URL: https://www.fabula.org/lht/8/collot.html. Consultado em 21. 6. 2020.

DaMATTA, Roberto. O que é o Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

DINIZ, Leandro. Mercado de Línguas: a instrumentalização brasileira do português como língua estrangeira. Dissertação (mestrado em linguística) – Instituto de Estudos da Linguagem/ Universidade Estadual de Campinas, 2008.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1991.

HASHAS, Mohammed. Intercultural geopoetics in Kenneth White's open world. Cambridge: Cambridge Scholars Publishing, 2017.

IUNES & LIMA. Falar...Ler...Escrever Português. Livro-texto, 3.ed. São Paulo: E.P.U., 2017.

Português via Brasil. São Paulo: E.P.U., 2016.

McFADYEN, Mairi. The Tony McManus Geopoetics Lecture: Finding Radical Hope in Geopoetics. Leith Parish Church: 2018. URL: http://www.geopoetics.org.uk/mcmanus-geopoetics-lecture-mairimcfadyen/ . Consultado em 02/05/2020.

McMANUS, Tony. The Radical Field. Edinburgh: Sandstone Press, 2007.

MIGNOLO, W. D. (2008). "Desobediência epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política". In: Cadernos de Letras da UFF, Dossiê: Literatura, língua e identidade, nr. 34, p. 287-324.

NASCIMENTO, Gabriel. Racismo Linguístico: os subterrâneos da linguagem e do racismo. Belo Horizonte: Letramento, 2019.

OCAÑA, Alexander; FONTALVO, Ivan; CONEDO, Zaira. Decolonialidad de la educación: Emergencia/urgencia de una pedagogía decolonial. Santa Marta: Editorial Unimagdalena, 2018.

ORLANDI, Eni. Língua e conhecimento lingüístico: para uma História das Idéias no Brasil. São Paulo: Cortez, 2002.

PEREZ, J. R. R. Lição de português: tradição e modernidade no livro escolar. Campinas: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1991.

WHITE, Kenneth. La Plateau de l'Albatros: Introduction à la Géopoétique. Paris: Grasset et Fasquelle, 1998.

Geopoetics, Places, Culture, World. Glasgow: Alba Editions, 2003.


13 vistas

Entradas Recientes

Ver todo

A(r)mar cuerpos tullidos.

Por Vanina RODRÍGUEZ Sobre abismos, hospitalidades y estrategias de resistencia desde la representación corporal[1]: Cuerpo exiliado, torturado, desgarrado. Cuerpo en resistencia. Resumen El presente

© 2023 by The Artifact. Proudly created with Wix.com

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now